Não quero mais a lapidação de mim!
Agora eu abraço meus anseios,
abarco meus desejos,
e aceito meus defeitos.
Se quer mesmo saber, que venham os defeitos!
Abri mão de me consertar,
de ficar o tempo todo tentando chegar à conclusão que eu nunca vou ser.
Ah! Agora? Eu venero meus defeitos.
Vanglorio meus erros.
Me divirto com eles.
É, eu já pisei na java mil vezes!
Já fiz tomei milhares de escolhas erradas sim,
E me arrependi tanto que errei de novo!
Claro que eu me arrependi depois, então fiquei me torturando até errar outra vez.
Fiquei lá sentada no chão, tentando remontar meus cacos.
Mas as peças desse quebra-cabeça não encaixam, né?
Fazer o quê?
Vai ver elas não devam se encaixar.
Sou birrenta sim,
contraditória sim,
imperfeita sim!
Não sou santa!
Estou longe, bem longe, de ser uma princesinha
dessas de romancinhos e nem das de Esopo.
É que eu me divirto muito mais fazendo papel de vilã,
que é sádica, que é destrutiva, que é divertida.
Aquela que nada num sentido, até que
os outros peixes decidam nadar no mesmo sentido que ela,
Aí ela dá um jeito de ir para o outro lado só para nadar contra a maré.
Pura implicância!
Além disso, sou cheia de vícios.
Mas não são esses vícios terrenos não.
São de outra instância.
E são piores! Ah se são!
Eu me libertei nos meus conflitos,
nas minhas intrigas entre eu e eu mesma.
Voei, voei e voei, e,
lá em cima,
descobri que queria mergulhar.
Não, meu bem, estabilidade não é para mim.
A incerteza me traz vida.
Oscilo entre o yan e yang.
....
(to be continued)
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Haiti [Caetano Veloso e Gilberto Gil, letra de Caetano Veloso]
(1993)
Quando você for convidado pra subir no adro da
Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam
estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de
meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
Quando você for convidado pra subir no adro da
Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam
estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de
meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
domingo, 7 de novembro de 2010
Anestésico !!
Sentia o frio do vidro enquanto encostava a ponta do nariz e o meio da testa. A chuva caindo sobre coisas lá fora trazia lembranças. Aquela manhã chuvosa deixava tudo com o ar de melancolia e suplicava o aconchego. Vinha para impedir que se saísse antes do dia começar. Ela estava reclusa em pensamentos fora desta dimensão.
O som da chuva era o único silêncio. Que silêncio, que parecia ser o passaporte para o mergulho profundo naquilo que não vem diretamente à mente. Uma gota saía sob o pequeno bloco de vidro em que encostava a cabeça. Não poderia dizer se era água de chuva ou água de lágrima. Ambas significariam nada. Foi o que aconteceu: Singelos e puros símbolos de expressão de sentimento que, naquele momento, tudo significavam menos sentimento. Aquela paisagem separada dela por um vidro a encantava e entristecia. E sentia uma enorme gana de alcançá-la, ela a sentia dentro de si e também sentia que ela, a paisagem, não pertencia a ela.
O silêncio permanecia e, em busca de algo que preenchesse o vazio instalado na parte interna do centro do meu peito, abandonou a paisagem verde, parada e molhada. Saiu dali arrastando os chinelos, tentando se proteger do frio, aquecendo as mãos frias e secas na caneca de café. Fechou os olhos acreditando em nada, não pensava no que viria durante o dia. Não queria. E nem vivia o momento. Estava apenas ali, perdida em si no seu automatismo anestésico.
Havia dormido talvez por horas que preencheriam uma vida. Uma breve vida, mas uma vida. Tempo mais que o suficiente para satisfazer a sede de apaixonados, na luta contra o tempo. O tempo... Naquele momento, o tempo deixara de ter sua ilustre personificação. Ela dormiu uma noite sem sonhos e acordou tão cansada quanto estava quando se deitou.
Sentou em algo confortável, se ajeitou ali e olhava distante enquanto tomava o seu café. Estava longe e estava em lugar nenhum. Noutro momento, perguntara-se se o breu que a impedia de ver o seu interior era simplesmente o vazio absoluto ou era mesmo a escuridão que deixava tudo vazio.
O embate com a realidade se deu com o barulho do telefone, que a fizera esquecer daquilo, pelo menos por uns momentos, e voltar para as suas obrigações cotidianas. Nada importante aquele telefone, a não ser isso. Desligou, passou a mão nos cabelos desalinhados pelo movimento no travesseiro, e respirou profundamente, como que se buscasse fôlego para se manter firme até o fim dia e assim o dia seguinte. Andou agora com mais pressa até o banheiro para se aprontar. Tomou um banho quente, deixando que a água caísse em seus ombros com a mão de quem dá força, seguiu com o seu ritual matinal nada mágico, juntou suas coisas e saiu para o mundo que não poderia esperar por ela.
O som da chuva era o único silêncio. Que silêncio, que parecia ser o passaporte para o mergulho profundo naquilo que não vem diretamente à mente. Uma gota saía sob o pequeno bloco de vidro em que encostava a cabeça. Não poderia dizer se era água de chuva ou água de lágrima. Ambas significariam nada. Foi o que aconteceu: Singelos e puros símbolos de expressão de sentimento que, naquele momento, tudo significavam menos sentimento. Aquela paisagem separada dela por um vidro a encantava e entristecia. E sentia uma enorme gana de alcançá-la, ela a sentia dentro de si e também sentia que ela, a paisagem, não pertencia a ela.
O silêncio permanecia e, em busca de algo que preenchesse o vazio instalado na parte interna do centro do meu peito, abandonou a paisagem verde, parada e molhada. Saiu dali arrastando os chinelos, tentando se proteger do frio, aquecendo as mãos frias e secas na caneca de café. Fechou os olhos acreditando em nada, não pensava no que viria durante o dia. Não queria. E nem vivia o momento. Estava apenas ali, perdida em si no seu automatismo anestésico.
Havia dormido talvez por horas que preencheriam uma vida. Uma breve vida, mas uma vida. Tempo mais que o suficiente para satisfazer a sede de apaixonados, na luta contra o tempo. O tempo... Naquele momento, o tempo deixara de ter sua ilustre personificação. Ela dormiu uma noite sem sonhos e acordou tão cansada quanto estava quando se deitou.
Sentou em algo confortável, se ajeitou ali e olhava distante enquanto tomava o seu café. Estava longe e estava em lugar nenhum. Noutro momento, perguntara-se se o breu que a impedia de ver o seu interior era simplesmente o vazio absoluto ou era mesmo a escuridão que deixava tudo vazio.
O embate com a realidade se deu com o barulho do telefone, que a fizera esquecer daquilo, pelo menos por uns momentos, e voltar para as suas obrigações cotidianas. Nada importante aquele telefone, a não ser isso. Desligou, passou a mão nos cabelos desalinhados pelo movimento no travesseiro, e respirou profundamente, como que se buscasse fôlego para se manter firme até o fim dia e assim o dia seguinte. Andou agora com mais pressa até o banheiro para se aprontar. Tomou um banho quente, deixando que a água caísse em seus ombros com a mão de quem dá força, seguiu com o seu ritual matinal nada mágico, juntou suas coisas e saiu para o mundo que não poderia esperar por ela.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Anestésico
Acordei e me olhei no espelho. E era apenas a mera imagem da minha pessoa. Algo tão banal. Tão normal. Hoje é apenas mais um dia. Mais uma manhã. Mais uma tarde. Mais uma noite. Tudo, o som do barulho caindo na janela dos carros correndo na rua, da conversa entre vizinhos, o cortejo cotidiano, o latido do cachorro... tudo é apenas mais um som. Nascemos porque temos que nascer, e então vamos vivendo. Um vivo tão morto. Agimos automaticamente. Por mais que algum fato abale nossas vidas por alguns segundos, no fim, continuamos a viver cada dia como se fosse todos os dias. O mesmo ciclo de vida. Numa ação e reação contínua. Os mesmos sentimentos, os mesmos procedimentos, as mesmas lições, as mesmas conclusões, as mesmas cores, os mesmos temores. De tanto repetir tudo, nos tornamos anestesiados. Estamos imersos nessa mesmice, afogados pelo cotidiano. E seguimos vivendo. Vivendo e vivendo e vivendo e morrendo. Eu chego nessa vida e saio dela. Tão anestésico que me tornei cega. Tão automático que vamos caminhando entre as engrenagens frias e duras do relógio. De um jeito ou de outro, continuamos parados, acomodados em nosso cotidiano ordinário. Não sinto.
Hoje acordei, vivi e fui dormir. Hoje foi apenas mais um dia. Eu permaneço anestesiada.
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