sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

22 de dezembro

         [ Praticamente, somente agora senti que o Natal está próximo. Com esse calendário letivo todo desorganizado ( férias em setembro, aulas em dezembro e janeiro), perdi a noção de tempo. Felizmente, eu e toda a equipe gigantesca da universidade (alunos, professores, funcionários), tivemos um intervalo para descanso no meio de um semestre conturbado. Agora, no terceiro dia de recesso,]
         É tempo de família. É tempo de amigos. É tempo de transição. É tempo de reflexão. O ano que chega e o que vai. É inevitável fazer aquele balanço de tudo o que passou. Reviver alguns momentos marcantes. Assim como é inevitável fazer planos para o próximo ano. Aliás, também não deixamos de lembrar os que fizemos na mesma época do ano passado e não cumprimos. E se cumprimos alguns, festejamos. É mais um ano que se vai. Ainda que seja pouca a minha experiência de vida, ela já me mostra a massacrante rápida passagem de tempo. E dói. Dói ver o tempo escorrendo por entre seus dedos. Milhares de planos escorrendo juntos. Já é véspera de Natal! Mal tive tempo de cumprir as promessas do Natal passado. Será que não cumpri por falta de tempo mesmo?
         É menos evitável ainda deixar de pensar sobre tais coisas neste momento. Há dez minutos, lía uns versos do senhorzinho Itabira, enquanto suspirava ao contemplar a Lua, magnífica Lua. "Did you exchange a walk on a part in the war for a lead role in a cage?" era o que saía da caixinha de música, meu trecho favorito de "Wish you were here". Me dei conta de que dali a uma semana e meia acabaria o ano. Tão estranho pensar nisso. Deixei tanto no caminho. Tanto contive... "We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year, running over the same old ground. What have we found? The same old fears " continuava a música. Fechei os olhos, e os dois grandes eu's igualmentes perdidos no grande aquário. Os eu's fragmentados, dispersos por aí. Talvez seja a hora para isso: catá-los e juntá-los. Com certeza terei algo como uma pintura cubista. Porque várias peças não se encaixam muito bem.
         Ah! Os planos, os planos. Quando mudá-los? Quando abandoná-los? Quais abandonar? Troca de ano inspira esses tipos de reflexões.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Noções

[ Essa poesia me foi apresentada por um querido amigo. Achei muito adequada para o blog e para mim e aqui está.]



De Cecília Meireles




Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.



Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.



Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,

só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.



Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,

e este abandono para além da felicidade e da beleza.



Ó meu Deus, isto é minha alma:

qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,

como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

..

Há dias em que a gente acorda e que a gente não quer o mundo.
"Fora todos daqui! Saiam de mim!", pensamos.
Então a gente se recolhe unicamente para o mundo dentro da gente.
Ficamos ali , meio perdidos, meio encontrados.
Tentando encontrar a chave para um enigma que não tem chave.
Porque o código que descodifica este engima muda todos os dias.
Mal chegamos próximos de descobrir um, mal nos distraímos,
E quando nos damos conta, o código já mudou de novo.

Então perdermos a paciência.
Será que fazemos tanta questão assim de descodificá-lo?
É neste momento que descobrimos o mundo.
Nos deslumbramos com o mundo.
Percebemos as coisas maravilhosas que ele pode nos proporcionar.
Então o abraçamos forte.
E vamos por aí, com olhos curiosos, desvendando cada detalhe.
Mas chega o dia da decepção.
Descobrimos que todo o deslumbre,
na verdade, era coisa da nossa imaginação.
E a verdade é muito azeda.
Descobrimos que não se passam de ideais.


Então, vamos, pouco-a-pouco, nos recolhendo outra vez para nosso próprio umbigo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Pastelaria

De Mário Cesariny de Vasconcelos

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)