Sentia o frio do vidro enquanto encostava a ponta do nariz e o meio da testa. A chuva caindo sobre coisas lá fora trazia lembranças. Aquela manhã chuvosa deixava tudo com o ar de melancolia e suplicava o aconchego. Vinha para impedir que se saísse antes do dia começar. Ela estava reclusa em pensamentos fora desta dimensão.
O som da chuva era o único silêncio. Que silêncio, que parecia ser o passaporte para o mergulho profundo naquilo que não vem diretamente à mente. Uma gota saía sob o pequeno bloco de vidro em que encostava a cabeça. Não poderia dizer se era água de chuva ou água de lágrima. Ambas significariam nada. Foi o que aconteceu: Singelos e puros símbolos de expressão de sentimento que, naquele momento, tudo significavam menos sentimento. Aquela paisagem separada dela por um vidro a encantava e entristecia. E sentia uma enorme gana de alcançá-la, ela a sentia dentro de si e também sentia que ela, a paisagem, não pertencia a ela.
O silêncio permanecia e, em busca de algo que preenchesse o vazio instalado na parte interna do centro do meu peito, abandonou a paisagem verde, parada e molhada. Saiu dali arrastando os chinelos, tentando se proteger do frio, aquecendo as mãos frias e secas na caneca de café. Fechou os olhos acreditando em nada, não pensava no que viria durante o dia. Não queria. E nem vivia o momento. Estava apenas ali, perdida em si no seu automatismo anestésico.
Havia dormido talvez por horas que preencheriam uma vida. Uma breve vida, mas uma vida. Tempo mais que o suficiente para satisfazer a sede de apaixonados, na luta contra o tempo. O tempo... Naquele momento, o tempo deixara de ter sua ilustre personificação. Ela dormiu uma noite sem sonhos e acordou tão cansada quanto estava quando se deitou.
Sentou em algo confortável, se ajeitou ali e olhava distante enquanto tomava o seu café. Estava longe e estava em lugar nenhum. Noutro momento, perguntara-se se o breu que a impedia de ver o seu interior era simplesmente o vazio absoluto ou era mesmo a escuridão que deixava tudo vazio.
O embate com a realidade se deu com o barulho do telefone, que a fizera esquecer daquilo, pelo menos por uns momentos, e voltar para as suas obrigações cotidianas. Nada importante aquele telefone, a não ser isso. Desligou, passou a mão nos cabelos desalinhados pelo movimento no travesseiro, e respirou profundamente, como que se buscasse fôlego para se manter firme até o fim dia e assim o dia seguinte. Andou agora com mais pressa até o banheiro para se aprontar. Tomou um banho quente, deixando que a água caísse em seus ombros com a mão de quem dá força, seguiu com o seu ritual matinal nada mágico, juntou suas coisas e saiu para o mundo que não poderia esperar por ela.
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